Atualizado em abril de 2026 · 14 min de leitura

Por Que Brasileiros Estão Abandonando Portugal e Indo Para a Espanha

Durante quase duas décadas, Portugal foi o destino europeu natural dos brasileiros. Idioma compartilhado, acordos bilaterais como o PB4 e uma comunidade já estabelecida tornaram Lisboa e Porto as capitais do sonho europeu brasileiro. Mas em 2025 e 2026, algo mudou. Cada vez mais brasileiros estão olhando para o outro lado da Península Ibérica — e os motivos são concretos, documentados e, em muitos casos, irreversíveis.

Neste artigo, analisamos os fatores que estão impulsionando essa migração interna na Europa: a crise habitacional portuguesa, as deportações em massa, as filas intermináveis na AIMA, e do outro lado, uma Espanha com salários mais altos, nacionalidade em 2 anos e mercado de trabalho aquecido.

1. A crise habitacional de Portugal: o estopim da debandada

Entre 2012 e 2021, os custos com habitação em Portugal dispararam 78% — mais do dobro da média da União Europeia. Em 2026, a situação não melhorou. Os números falam por si:

CidadeAluguel T1 (centro)Metro quadrado (compra)
Lisboa€1.413/mês€5.200/m²
Porto€1.025/mês€3.800/m²
Braga€781/mês€2.400/m²

No bairro do Chiado, em Lisboa, um T1 pode custar até €4.000 por mês. Para um brasileiro que recebe o salário mínimo português (€870 em 2026), arrendar um apartamento sozinho é matematicamente impossível. E a nova regra de 2026 piorou: a partir de julho, o visto de longa duração passará a exigir comprovação de renda mínima de €1.500/mês.

Enquanto isso, em Madrid, um apartamento T1 no centro custa €1.299/mês, e fora do centro €955/mês. Em cidades como Valência, Málaga e Sevilha, os valores são ainda menores.

O dado que choca:

O poder de compra dos espanhóis é 34,2% maior do que o dos portugueses, mesmo o custo de vida na Espanha sendo apenas 5,6% mais alto (excluindo aluguel). Ou seja: na Espanha, sobra mais dinheiro no fim do mês.

2. Portugal deportou 23 mil imigrantes em 2025

Em 2025, Portugal notificou 23.134 imigrantes para deixarem o país — um aumento de 5.080% em relação a 2024. Quase 34 mil pessoas entraram na lista de notificações para saída voluntária ou forçada. Entre os mais afetados: 5.386 brasileiros, o segundo maior grupo depois dos indianos.

Os números são inequívocos: 236 brasileiros foram efetivamente expulsos do território português entre 2024 e 2025 — em média, um brasileiro deportado a cada 3 dias. Um caso que ganhou repercussão foi o de uma mãe brasileira deportada pela Polícia de Segurança Pública em agosto de 2025, quando retornava de férias com a família.

A AIMA (Agência para a Integração, Migrações e Asilo), que substituiu o SEF, acumulou um passivo monumental: centenas de milhares de processos pendentes, imigrantes sem documento de residência há meses, e relatos de pessoas que ficaram “confinadas” em Portugal sem poder viajar por falhas da agência.

O cenário em Portugal:

  • 23.134 notificações de saída em 2025 (+5.080% vs. 2024)
  • 5.386 brasileiros na lista de notificação
  • 236 brasileiros efetivamente expulsos (2024-2025)
  • AIMA com centenas de milhares de processos em atraso
  • Renda mínima para visto longo sobe para €1.500/mês (julho 2026)

3. Espanha: salários maiores e nacionalidade em 2 anos

Do outro lado da fronteira, a Espanha vive um momento oposto. O país registrou recorde populacional em 2025 (49,3 milhões), puxado pela imigração. O PIB cresceu 2,8% no terceiro trimestre de 2025, e o Banco de Espanha projeta crescimento de 2,9% para o ciclo seguinte.

Para o trabalhador brasileiro, os números são claros:

IndicadorPortugalEspanha
Salário mínimo mensal€870€1.221 (14 pagamentos) / €1.424 (12 meses)
Prazo para nacionalidade7 anos2 anos
Dupla nacionalidadeSimSim (ibero-americanos)
Prova de idiomaA2 obrigatóriaIsento (ibero-americanos)
Aluguel T1 (capital, centro)€1.413€1.299
Poder de compra relativoBase+34,2%

A diferença mais impactante: enquanto Portugal exige 7 anos de residência para a nacionalidade (Lei n.º 9/2025), a Espanha mantém o privilégio de 2 anos para ibero-americanos. São 5 anos de diferença — e a possibilidade de ter um passaporte europeu muito antes. Para quem quer construir vida na Europa, esse cálculo muda tudo.

4. As medidas dos dois governos: portas que fecham e portas que abrem

Portugal: endurecimento

  • Fim das manifestações de interesse: o mecanismo que permitia a regularização de imigrantes que já estavam em Portugal foi extinto em 2024, afetando milhares de brasileiros que contavam com essa via.
  • Nova renda mínima para vistos (julho 2026): comprovação de €1.500/mês, endurecendo o acesso a vistos de longa duração.
  • AIMA em colapso: a agência que substituiu o SEF acumula atrasos históricos, com imigrantes esperando meses (às vezes mais de um ano) por suas autorizações de residência.
  • Aumento de deportações: +5.080% em 2025, com foco em imigrantes com processos irregulares.
  • Nacionalidade em 7 anos: a Lei n.º 9/2025 aumentou o prazo de 5 para 7 anos para lusófonos (era 5 anos antes de 2025).

Espanha: portas mais abertas

  • Lei de Startups (Ley 28/2022): criou o visto de nômade digital, facilitando a entrada de profissionais remotos com renda internacional.
  • Novo Regulamento de Estrangeiria (2025): simplificou processos, criou novos caminhos de regularização e modernizou o arraigo.
  • Digitalização do processo de nacionalidade: pedido 100% online pelo Ministério da Justiça, com prazo médio de resolução caindo para 12 meses.
  • Salário mínimo em alta: €1.221/mês (14 pagamentos), beneficiando 1,66 milhão de assalariados, com aumento real acima da inflação.
  • Nacionalidade mantida em 2 anos: apesar de discussões sobre reformas, o privilégio ibero-americano permanece intocado em 2026.

5. Quem já fez a troca: relatos e personalidades

A tendência não é apenas estatística — ela tem rostos, histórias e, cada vez mais, câmeras de YouTube ligadas.

O youtuber que se arrependeu de Portugal

Um dos criadores de conteúdo brasileiros mais conhecidos em Portugal declarou publicamente que “se fosse hoje, nunca teria vindo para Portugal”. Em entrevista ao portal O Minho, comparou as vantagens da Espanha — como a nacionalidade em 2 anos contra 7 em Portugal — e sugeriu que novos imigrantes considerem a Espanha como primeira opção.

Fonte: O Minho — “Famoso youtuber brasileiro diz que se fosse hoje nunca teria vindo para Portugal”

Anderson e Francine — Canal Simbora (Granada)

O casal brasileiro por trás do canal Simbora escolheu Granada, na Andaluzia, como base na Europa. Com vídeos mostrando preços de supermercado, custo de carro, aluguel e rotina diária, o canal virou referência para quem busca uma cidade europeia acessível. Granada oferece aluguéis até 60% mais baratos que Lisboa, com qualidade de vida comparável.

Fonte: Eurodicas — Brasileiros que moram na Espanha

Tátylla Mendes — Jornalista na Espanha desde 2018

Tátylla é jornalista brasileira que vive na Espanha desde 2018. Com presença ativa em blogs e redes sociais, ela documenta a realidade de viver no país e tem sido uma voz frequente sobre as vantagens da Espanha frente a Portugal para brasileiros — especialmente no quesito burocracia e velocidade dos processos migratórios.

Fonte: Eurodicas — Experiências de brasileiros na Espanha

Renato e Ruana — Casal de TI em Valência

Ele de Presidente Prudente (SP), ela de Santa Rita do Sapucaí (MG). Ambos trabalham com tecnologia e escolheram Valência por reunir custo acessível, praia, comunidade tech crescente e qualidade de vida. Após 2 anos de residência legal, já iniciaram o processo de nacionalidade espanhola — algo que em Portugal levaria mais 5 anos.

Fonte: Eurodicas — Brasileiros em Valência

Brasileiros enganados por influencers em Portugal

Um fenômeno documentado pela CNN Portugal e pelo portal Pplware revelou que dezenas de brasileiros chegaram a Portugal “enganados por youtubers” que prometiam imigração fácil e emprego garantido. Muitos acabaram em situação de vulnerabilidade, sem documentos e sem renda. A Ordem dos Advogados de Portugal chegou a avançar para os tribunais contra esses criadores de conteúdo. Parte dessas pessoas, desiludidas, redirecionou seus planos para a Espanha.

Fontes: CNN Portugal · Pplware

6. Os números: comunidade brasileira na Espanha cresce

Segundo o INE (Instituto Nacional de Estatística da Espanha), são mais de 91 mil brasileiros registrados oficialmente no país — o sexto maior grupo latino-americano. A composição é predominantemente feminina: cerca de 57 mil mulheres contra 33 mil homens.

Embora a comunidade tenha sofrido uma queda de ~10% durante a pandemia (de 98.655 em 2020 para 90.535 em 2022), os números voltaram a subir a partir de 2023 — impulsionados justamente pela combinação de fatores que tornaram Portugal menos atrativo e a Espanha mais acessível.

7. As cidades espanholas que mais atraem brasileiros

CidadePor que atraiAluguel T1 (centro)
MadridCapital, mercado de trabalho diverso, hub de empresas tech€1.299
BarcelonaEstilo de vida, praia, polo de startups e design€1.200
ValênciaCusto acessível, praia, comunidade tech, qualidade de vida€850
MálagaClima, polo tech emergente (Google abriu escritório), costa€900
SevilhaCusto baixo, cultura vibrante, gastronomia€750
GranadaCidade universitária, acessível, Sierra Nevada€600

8. Os vistos mais usados por brasileiros na Espanha

A Espanha oferece múltiplos caminhos legais para brasileiros. Os mais populares em 2026:

  • No Lucrativa: para aposentados e rentistas com €28.800/ano. Proibido trabalhar, mas dá residência e conta para nacionalidade. Leia o guia completo →
  • Nômade Digital (Ley de Startups): para trabalhadores remotos com renda internacional de €2.849/mês. Saiba mais →
  • Arraigo: social (3 anos no país), laboral (2 anos + oferta) ou por formação (conclusão de curso na Espanha). Principal via de regularização.
  • Cuenta ajena: contrato de trabalho com empresa espanhola. Exige oferta prévia e tramitação consular.
  • Búsqueda de empleo: 12 meses para procurar trabalho na Espanha com diploma de nível 6+. Veja como funciona →

9. O que considerar antes de trocar Portugal pela Espanha

A mudança tem vantagens claras, mas não é para todos. Pontos a considerar:

Vantagens da Espanha

  • Nacionalidade em 2 anos (vs. 7 em PT)
  • Salário mínimo 40% maior
  • Poder de compra 34% superior
  • Isenção da prova de idioma (DELE)
  • Mercado de trabalho maior e mais diverso
  • Processo migratório mais digitalizado

Pontos de atenção

  • Idioma diferente (espanhol, não português)
  • Sem PB4 — seguro saúde privado obrigatório
  • Comunidade brasileira menor que em Portugal
  • Burocracia de “cita previa” pode ser lenta
  • Tradução juramentada obrigatória dos documentos
  • Prova CCSE necessária para nacionalidade

Conclusão: a nova rota dos brasileiros na Europa

O movimento de brasileiros de Portugal para a Espanha não é uma moda passageira — é uma resposta racional a mudanças estruturais nos dois países. Portugal encareceu, endureceu e desorganizou sua política migratória. A Espanha, por sua vez, abriu novas portas, manteve privilégios históricos e oferece um retorno mais rápido para quem quer construir vida na Europa.

Para muitos, a pergunta deixou de ser “Portugal ou Brasil?” e passou a ser “Portugal ou Espanha?”. E, em 2026, os números mostram para onde a balança está pendendo.

Fontes e referências

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